A semana tinha sido de muita chuva, mas São Pedro decidira dar uma trégua naquela tarde. O Sol saiu de mansinho, lançando fracos e tímidos raios de luz naquele começo de tarde, fazendo com que eu me sentisse na obrigação de sair e aproveitar a brecha que a chuva tinha dado, antes que as nuvens carregadas voltassem a cobrir o céu. Sentei-me no banco de uma praça movimentada que dava vista a uma rua também movimentada. Fiquei ali, parada por alguns minutos só observando tudo o que estava ao meu alcance; quem me via de longe, sozinha naquele banco e debaixo do Sol que acabara de sair, podia arriscar jurar que o que eu estava fazendo ali era fotossíntese. Mas não, eu estava apenas observando.
De repente, pareceu que um vento bateu e plantou uma sementinha na minha mente pensativa e então eu comecei a reparar em alguns detalhes que passam despercebidos para a maioria. Tudo tem um par. Em alguns casos, não necessariamente um par, mas percebi que nada está disperso no mundo. Atrás de mim tinha um jardim e a primeira coisa que me fez refletir sobre essa questão da "companhia" foram as plantas. Num mesmo caule, por exemplo, havia várias folhas. Numa mesma flor, várias pétalas. E até a grama, que parece ser independente, tem suas raízes entrelaçadas umas as outras, debaixo da terra. Ao lado do meu banco, tinha uma fileira de formigas que seguiam juntas caminhando em zigue-zague, o que de longe fazia parecer uma série de pontinhos se mexendo aleatoriamente. Mas estavam juntas.
Por um segundo pensei estar enlouquecendo e sacudi a cabeça na tentativa de diluir aquele pensamento aparentemente sem nexo. Olhei no banco ao lado e tinha um casal sentado. Ok, nada de anormal, muitos casais vão às praças. Mais a frente tinha uma porção de crianças juntas, todas pulando e gritando; deduzi que faziam parte de alguma excursão de uma escola qualquer, tendo em vista havia um museu próximo ao lugar onde eu estava. O que me chamou a atenção foi ver que todas aquelas crianças estavam ali, aproveitando a companhia umas das outras e partilhando aquele momento juntas.
Virei para a esquerda e vi uma senhora caminhar depressa. Ela estava sozinha! Ah, não, espera... Ela está no celular. Na rua passou um ônibus lotado e um táxi com uma moça e o motorista, além de algumas muitas pessoas que caminhavam pela calçada.
A verdade é que ninguém vive sozinho. A gente pode até dizer que gosta da solidão, que curte passar uma tarde sem ninguém em casa ou até tirar um fim de semana para não fazer nada e não ver ninguém. A solidão faz bem e de vez em quando é necessária. De vez em quando. Quando a falta de companhia perdura por muito tempo, começa a machucar, a deprimir, a fazer mal; e aí a gente percebe que precisa de alguém. Essa companhia pode ser uma mãe, um irmão, um amigo, um parceiro; principalmente um parceiro. Poderia enumerar e contar sobre uma série de amigas que namoraram por um tempo e depois de uma grande decepção, juraram não quererem saber de namorado por um longo tempo; alguns meses se passaram e lá estavam elas, conhecendo caras novos e dando início a novas histórias. Porque é assim mesmo, a gente sempre vai precisar de uma companhia, por mais que negar isso seja mais fácil do que admitir. Não dá pra viver sozinho. Simples assim. Nascemos para viver em bando e dentro de um bando, com um par.
A solidão parece ser segura, aliviadora, confortável; e de fato é tudo isso mesmo. Mas uma hora a nossa própria natureza nos obriga a sair da zona de conforto e é aí que o Sol nasce de novo. E ele nasce quantas vezes for preciso.
Dependendo do ponto de vista, este texto pode beirar a paranoia. Mas não sei, de qualquer forma, gostei de tê-lo escrito. Comente! Deixe sua marquinha por aqui.
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