sábado, 30 de abril de 2011

Enfim, descansar.



Os vários comprimidos estavam começando a fazer efeito. A vista embaçava, a cabeça girava e os músculos se enfraqueceram permitindo que o corpo relaxasse sobre a cama. Cinco minutos, os seus últimos cinco minutos. Esses que mais pareciam cinco horas, devido a tudo que ela conseguiu lembrar e pensar antes que seus olhos se fechassem para sempre. Lembrou do porquê de ter feito aquilo e, com todos os seus argumentos, estava convencida de que fizera a coisa certa. Pensou que finalmente poderia sanar a dúvida que carregara consigo por tanto tempo: "Quem sentiria sua falta?"
Em fração de um segundo, foi como se estivessem retirado qualquer pensamento de sua mente. Ela se sentia cada vez mais leve, e em perfeito transe. De repente tudo ficou escuro. Foi quando, com muita força, conseguiu abrir os olhos. Ela já não era mais aquela garota. Agora ela era duas. Viu seu corpo ali, adormecido. E morto.
Sentiu um alívio de tal tamanho, a ponto de sentir uma felicidade que em vida não sentia há muito tempo. Deu um passo a frente e se olhou. Olhou seu corpo, quero dizer. Por mais incrível que pareça, não sentiu vontade alguma de voltar a ter domínio dele. Respirou fundo e saiu do quarto. Pode enxergar e ouvir todo mundo, sem que pudesse ser notada; o que, de certa forma, era muito bom. Viu a mãe cruzar a porta de seu quarto, e soltar um grito de desespero. Fechou os olhos e sorriu satisfeita. Mas não era uma satisfação maldosa, era um sentimento de missão cumprida. Chegou perto da mãe e sussurou um "Tudo ficará bem, não se preocupe". Em questão de minutos a casa já estava repleta de para-médicos, que depois de verem que nada mas poderia ser feito, colocaram a garota na ambulância e foram embora. A família estava inconsolável, e em nenhum momento sentiu que tivesse feito a escolha errada. Ela sabia que eles ficariam bem.
Viu pegarem o telefone e discarem um número. Num piscar de olhos estava naquele quarto, sentada na beira da cama dele, o observando escrever sob um papel, na escrivaninha branca. Involuntariamente sorriu; o telefone tocou e ela já sabia da notícia que lhe seria dada. Ele atendeu e a reação, bem, a reação era a que ela não esperava. Foi pior que a reação da família. Mil vezes pior. Agora sim ela começara a repensar no que havia feito, mas nada que a fizesse se culpar. Em frente ao desespero do garoto, ela se aproximou e passou a mão por entre seus cabelos e soltou um "Eu te amo". Mas ele não podia ouvi-la e nem senti-la. No dia seguinte, com todos naquela sala fria e o que antes era seu corpo, a garota pode presenciar toda a cena. Ela realmente estava muito bonita, ou melhor, haviam-na deixado realmente bonita. Ela podia sentir o que cada um ali sentia por dentro. Mas quando se aproximou dele, pode notar quem realmente estava sentindo mais sua falta.
E pode perceber também, que ele a amava mais do que ela imaginava.

*texto TOTALMENTE fictício*

Beijos e me liga pra contar do seu suicídio :*

PS: Vai dizer que você nunca quis saber quem sentiria sua falta?
PS2: Passei um tempinho fora... a inspiração não anda me visitando com tanta frequência.
PS3: Comente, deixe sua marquinha aqui ;)

domingo, 10 de abril de 2011

Vazio.


Era sexta-feira, seis da tarde. Redação movimentada, dia de fechamento da edição especial de aniversário da revista, e eu estava ali. Sentada, cansada, com os olhos fixados na tela do computador e rodeada de papéis. Quando vi a secretária cruzar a porta com o meu copo de capuccino nas mãos, senti meus olhos brilharem. Já terminara meus deveres, e antes que ela pudesse chegar em minha mesa, já havia juntado todos os papéis e os enfiado na pasta, pegado o notebook e colocado a bolsa no ombro. Só passei a mão no meu capuccino e fui embora. Estava tão quente, que hora ou outra eu tinha que troca-lo de mão, para evitar que meus dedos se queimassem. Acenei para o primeiro táxi que passou pela Central Park West e, por volta e uma ou duas horas depois, estava no prédio. Entrei e, para minha infelicidade, o elevador estava fora de serviço, o que me fez lembrar de contatar o síndico sobre este problema na próxima reunião de condomínio. Subi pelas escadas mesmo, e embora o cansaço estivesse pesando, cheguei sã até o oitavo andar, onde ficava o meu apartamento. Ou melhor, o nosso apartamento.
Ao girar a maçaneta e abrir a porta, me deparei com a escuridão. Procurei, cautelosamente, pelo acendedor e em segundos o ambiente já estava sendo iluminado pela luz amarelada da sala de estar. Joguei na poltrona tudo que carregava nos braços. O casa estava desarrumada e haviam brinquedos espalhados pelo chão da casa toda. Me abaixei para recolhê-los e guardá-los no lugar os primeiros que vi, mas me lembrei que tal esforço seria em vão. Ela não voltaria a brincar com eles. Soltei-os. Me dirigi à cozinha, onde me vi diante da maior pia com louças sujas que já vi na vida. Hesitei em começá-las a limpar, mas me lembrei que ninguém mais haveria de usá-las novamente. Voltei para a sala e no sofá me sentei; liguei o abajur e a mesma mesa que servia de suporte para ele, também abrigava um cinzeiro. Ele sabia que eu odiava quando ele deixava cinzas ali. Por um segundo pensei em jogá-las fora, mas me lembrei de que ele não voltaria a usar aquele cinzeiro.
Me levantei e fui para o quarto da minha menina. Mais brinquedos espalhados pelo chão. A janela estava aberta, ventava bastante e as cortinas balançavam incessantemente. Cheguei a dar um passo em direção à janela, para fechá-la, mas me lembrei de que ninguém mais ficaria doente ali por tomar uma corrente de vento. Ela não dormiria mais ali. Fui para o meu quarto, e a cama encontrava-se desarrumada. Abri as portas do guarda-roupa, que agora estava vazio. Hesitei em arrumar a cama, mas me lembrei de que ninguém mais dormiria ali. Ao menos não no lado em que ele dormia.
Silêncio. Silêncio.Silêncio.
Acordei com um susto, e o coração num disparo só. Sentei-me na cama e olhei para o lado. Ele estava ali. Dormia em sono profundo e eu podia ouvir sua respiração. Dei um suspiro de alívio e senti meus olhos se encherem d'água. Não aguentei, me aproximei e dei um beijo de leve.
Me levantei e fui até o outro quarto. A luz estava apagada e o cômodo era iluminado apenas pela luz rosada do abajur; olhei em direção ao berço e vi ali a minha menina. Meus olhos se encheram d'água novamente e eu me aproximei de onde ela dormia. Descansava delicadamente, em sono intenso... Passei a mão por seus cabelos finos, e a beijei.
Nada como sentir o alívio que senti ao ver os dois ali, dormindo.

Beijos e me liga para contar dos seus sonhos de madrugada :*

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